In Memoriam

Quais são as chances de conhecermos alguém por toda a vida e nunca nos depararmos com sentimentos ruins ou desprezíveis em relação a essa pessoa? Hoje eu percebi o quanto eu amava o meu vizinho, no sentido mais sagrado da palavra vizinho. Eu amava o Coronel Galba como meu semelhante. Durante toda a minha vida ele esteve ali, sempre afetuoso, sempre compreensivo. Durante toda a minha vida ele fez parte dela, como um personagem do meu filme. E nunca foi uma questão o sem número de oposições que nós poderíamos ter. (normalmente síndicos não reagem bem quando um dos condôminos incendeia o prédio). Afeto e compreensão são coisas raras, e eram tão bonitas nele. O que me dói não é a morte, porque me fascina a própria manifestação de consciência entre essas transformações magnânimas de carbonos e hidrogênios no que nós conhecemos por nascimento e morte.  O que me dói não é a saudade, física e apegada. Tudo na vida é efêmero e nós devemos lutar por transcendência e sublimação, sempre. O que me dói é essa perda da bondade.  É ver com o passar do tempo, esse filme, da minha vida, ficar um pouquinho mais cruel e triste.  Sem o Coronel a vida fica mais feia. Mas na própria bondade que ele espalhava repousa a impressão clara de que ele produziu a felicidade dos sábios para si mesmo.  E eu espero que na minha vida, outros personagens, tão bondosos, tão carismáticos, possam aparecer para cobrir um buraco que inegavelmente se faz.

Hoje eu perdi mais um pedaço da minha infância.

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