Lei, Liberdade e Torpor. (amor)

Leis não brotam da terra, não são impressas pela natureza em pele alguma, não são determinações divinas. Para nossa  supresa,  leis são criações do homem. E, ainda mais chocante, leis são criações de homens em posição de poder criar leis. Portanto, na defesa do direito de identidade e liberdade individual dos homens, o simples argumento jurídico é questionável, parcial, e, sobretudo, pouco esclarecido. 

Os caminhos que levam até a construção de leis estão longe de representar a esperada reflexão sobre o bem estar, ou a preservação de identidade e direito a vida dos que vivem sob essas leis. As constituições ao longo do mundo impõe uma forma de vida moralista, sob uma escravidão mercadológica, onde essências singulares e bem estar são simplesmente esmagados.

Se não vívessemos sob constante e fatal pressão de mercado perceberíamos facilmente que sobre os royalties do petróleo a melhor decisão seria pela exploração de fonte de energia renovável e não-poluente. Mas somos obrigados a temer pela sobrevivência, fomos forçados a isso, para não pensarmos senão com base na expectativa de promoção social.   No século XV Maquiavel falava que a política era controlada através do controle sobre o medo da morte. E o liberalismo político-econômico, que se vestia de forma tão colorida, afirmando uma valorização impar do indivíduo, esmagou as singularidades com uma eficiência inédita na história sob essa política do medo. E o pior, assim estamos sendo mortos.

Nos últimos anos tudo que perdemos foram liberdades individuais, é vergonhoso comparar a afirmação pela identidade há 50 anos atrás com as dos dias de hoje. E depois dizem que o marxismo é que massifica. A frenética busca por espaço e ascenção desencadeou um darwnismo social tão grande que qualquer “desvio” é motivo para matar o competidor. Negro, gay, judeu, fala alto, não sorri, maconheiro, insegura, escreve muito… a lista de adjetivos e “defeitos” é interminável e a opressão é fascista.  Você olha para as pessoas (qualquer uma, ou a imensa maioria delas) e elas parecem animais assustados, evidentemente não são felizes. A depressão é epidêmica.

A depressão é epidêmica por que nem a um bicho é negado o acesso a identidade, como esse acesso é negado ao homem hoje em dia. Todos querem se expressar e o único caminho para isso é o entendimento, via palavras, argumentação, cautela, ausência de “princípios”, auto crítica e uma porrada de outras coisas que já sairam de moda. Nunca uma contra-cultura (urgentemente pró cultura) foi tão necessitada.

A minha briga pela identidade é diária. Sigo religiosamente as palavras da célebre Pasionaria espanhola, Dolores Ibárruri, que dizia que “É melhor morrer em pé do que viver de joelhos”.  Dou-me o direito a opinião e sofro com isso, a maioria das opressões supracitadas não são previstas em lei, mas a força da repressão social é tão terrível quanto ou até pior do que a mera aplicação de uma lei.  Costa-Gravas mostra em “O Corte” a vida de um engenheiro ser triturada pois ele vivia “na terra do sorriso obrigatório, mas havia se esquecido de como sorrir”.

Porém, existe no Brasil (e no mundo) um anacronismo legal, que tende a cair, em relação ao uso de drogas. Esse anacronismo é bastante cruel pelas consequencias sociais da proibição. Esse debate gira em torno da discussão malefícios das drogas versus  reflexos sociais. Eu não acho que os malefícios das drogas sejam piores do que disturbios alimentares, e acredito que as psicoses e neuroses criadas em massa pelo capitalismo moderno tornam esse tema quase insignificante. Ainda mais se o uso de drogas é observado pela perspectiva histórica. No meu humilde ponto de vista, essa discussão sobre entorpecência esconde uma visão positivista de progresso, o mesmo ideário fascista que se espalha por outros preconceitos que não são concebidos em lei.

Prefiro analisar o absurdo que essa lei representa empiricamente. A ausência de sentido em tentar, por motivos suspeitos, aplacar um consumo que no caso da cannabis, por exemplo, existe há 40 séculos. A Cannabis, uma planta, que pode ser produzida como manjericão, que tem efeitos orgânicos muito mais leves do que o Alcool, só gera uma indústria pela proibição de consumo e produção. 

Desde o início dos tempos a entorpecência fez parte do processo de criação humano, e se isso é questionável, deveria ser posto no saquinho de liberdades individuais cuja decisão de uso pende sobre cada um de nós. Tem gente que bebe, tem gente que não bebe. Quem tem problemas com bebida se trata. Tem gente que tem problema com comida, tem gente que tem problema com sexo… Nada disso é motivo para vetar toda a raça humana de direito sobre as próprias experiências.

E graças a proibição da cannabis (e aos poucos, observando outras leis), no meu desenvolvimento de vida, eu aprendi a questionar mais a constituição do que o meu impulso de liberdade, direito,  e respeito ao homem.

————————————————————————————————————————————————-

Ela sumiu assim que passou o ônibus. Eu pulei pra dentro, corri até janela, mas o movimento já havia lhe arrastado do meu campo de visão.

– ‘Vai lá! Manda um beijo pra moça!”. disse o motorista, lendo no meu rosto a denúncia vergonhosa dos apaixonados.

Sendo a sugestão ardentemente desejada, embora impossível, tirei do bolso a fotografia recém ganha, com um carinho que somente pessoas de 12 anos entendem. Passei os quarenta movimentados minutos do ônibus  ignorando severamente conselhos sobre descolamento de retina,  com o meu olhar e meu peito fixos naqueles outros olhos, impressos, magnéticos, como se com isso eu mandasse fisicamente todo o amor preterido pelos segundos de movimento que me negaram o último aceno.

————————————————————————————————————————–

Anúncios

3 Respostas para “Lei, Liberdade e Torpor. (amor)

  1. Balde chutado, entorpecimento literário ativado depois de beber palavras, fumar ideias, cheirar paixão em pleno transporte público. Gostei.

  2. Eu concordo contigo.Com o segundo texto. Concordo com ele integralmente. Mas assim, e não só com relação à cannabis mas com relação a outras drogas tbm.

    Só não entendi, pq o textinho sobre o amor vem antes. podia ter separado os dois. que, aliás, o primeiro texto, está muitíssimo bem escrito. Parabéns, amor.

    :***
    p.s. preciso te encontrar. o seu Dublinenses ta comigo ainda. só reparei outro dia. achei q já tinha entregue.

  3. Parabéns, Pedro.
    Muito bom esse texto, companheiro! Compartilho do mesmíssimo pensamento.

    Por isso que os excêntricos devem ser enfáticos. Porque as ‘regras’ do jogo atualmente persistem em erradicar as efusões que possam gerar contrariedade, ou possíveis conflitos decorridos da mudança de comportamento da classe dos jogadores. Principalmente porque – como muito bem comentado no seu texto – o objetivo principal da regra é estipular um domínio dos quem confeccionam o regulamento em relação aos restantes dos peões no tabuleiro.

    Os pinos do jogo são coloridos. Mas têm a mesma altura, a mesma forma e as cores são previamente limitadas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s