O Sonho de Alice

Acordei com a vista embaçada, sentada, no susto. No meio de uma sala fria, com luz forte, fria, com gente fria. A minha visão não voltava do sono, só via vultos. Minha perna tremia. Não sabia como havia parado lá. Até que alguém começou a falar:

– Alice Monteiro.

Era comigo. Era óbvio que era comigo, desde o início. Puta merda. Tivesse eu um cigarro para acender, a hora era essa. Eu ainda sem enxergar, só as formas. Respondo com entonação de cabra cega, tentando evitar o pavor iminente.

– Eu.

– A Srta. Quer se defender?

– Me defender do que, Pai do céu?

Silêncio momentâneo. Bebi para caralho ontem de noite. Não sei como voltei para casa (aparentemente não voltei). Só posso ter matado alguém.

– Nós te catamos na rua ontem. Julgamos-te inadequada. Você fala demais.

– Eu tava bêbada, PORRA. Inadequada por quê?

Sem acreditar naquilo, e tentando ver, entrei em desespero.

– Sei lá, você se acha melhor que os outros.

Ah não. Essa acusação, não. Tudo, menos essa acusação. Uma forte vontade de chorar me acertou como uma pedra. Eu tremia freneticamente, as duas pernas.

– Eu tratei alguém com arrogância? Alguma vez falei que era melhor que alguém? Torci pelo fracasso alheio? Falei mal pelas costas?

– É o seu jeito.

– O que no meu jeito, PELAMORDEDEUS?! Quem são as pessoas que me julgam inadequada? Eu fiz alguma coisa para elas?

– É difícil lidar com você. O jeito como você fala… Parece que você tem razão em tudo. Parece que você quer estar no centro das atenções.

– Confesso que eu gostaria de ter a atenção que eu dedico aos outros, nada mais. E tento agir honestamente com os meus sentimentos. Olha, eu não quero ter a razão, só tento agir com ela… Só quero fazer o que me deixa feliz. Que maldito jeito é esse? O que eu fiz contra quem?

– Sei lá, talvez você devesse ser mais humilde. As pessoas acham que você é muito difícil, egocêntrica.

Silêncio. Sempre “as pessoas”. A reprovação está sempre entre os vultos. Impressionante como os vultos tem o poder de destruir qualquer amabilidade através da paranóia. Por que não se dirigem a mim? Que críticas têm a fazer? Mais humilde como? Uma sensação de náusea me toma inteira. Uma náusea vertiginosa, nascida do pânico da insegurança. Nascida do pavor de não saber como lidar com as pessoas. Tento, com todas as forças, enxergar o meu delito, a minha agressão. É inútil. As pessoas estão bem perto. Eu sei, sinto nos olhares. Não faço auto-elogio, e tenho bastante certeza de que não destrato ninguém. Ajudo a todos que me pedem ajuda. Prego pela cooperação. Mas o conteúdo me parece irrelevante, é o maldito jeito. Jeito sem forma, sem cheiro, sem nada palpável para que se possa mudar. Uma condenação de nascença. Sinto-me nua e pré-julgada, usurpada das minhas qualidades. Sem direito a qualidades. Sinto-me extraída do mundo. Quando eu estou segura, sou egocêntrica. Quando eu estou carinhosa, piranha. Quando eu estou deprimida, chata. Se me acusassem de burra, ou má atriz, não me tirariam tanto a paz. Pouco importa. Vão me matar de qualquer maneira. Interrompo meus pensamentos, no grito.

– EU QUERO!

– Quer o que, Alice?

– Me defender.

E acordo chorando, sem saber para onde ir.

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6 Respostas para “O Sonho de Alice

  1. Toma um café.

  2. Cadê as categorias desse blog?

  3. Forte esse, hein. Sua alma feminina urge… ruge… Rouge. rs

    :~

  4. no melhor estilo kafka de escrever !!

  5. dificil até de comentar! eu sou mt fã!

  6. “Parece que você tem razão em tudo.” comentário superficial: Isso é coisa de leonino.
    Roubaram o comentário que eu ia fazer. eu também achei bastante kafkiano. Entretanto, seria mais se não houvessem explicações para a inadequação de Alice.

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