Sexo, drogas, comida e outras compulsões.

Todo corpo tem um limite. Esse limite é tão singular quanto singulares são os corpos. E eu acredito que os donos dos corpos são responsáveis por seus limites.

Uma garrafa e meia de vodca depois, resolvemos dar uma volta, eu, Daniel, Mário e Luís. Era uma quarta-feira, chovia fino, eu tinha acabado de passar no vestibular da UFRJ e havia ganho seis meses de absoluta vagabundagem. Bebíamos na minha casa desde oito da noite – deviam ser umas onze e meia- e a essa altura delíberavamos sobre o que fazer. O primeiro buraco da cidade que poderia nos acolher e embebedar no meio de uma semana de trabalho era o empório, mas a grana tava curta e o chopp lá é caro. Consideramos que seria uma roubada. E chato.

Queríamos algo barato e mais imprevisível. Eu, particularmente, queria qualquer coisa. Era um virgenzinho frenético, disposto a fazer tudo ao mesmo tempo e descobrindo vários prazeres. Sempre soube respeitar os meus limites e dizer não. Posso afirmar ainda que a coisa que mais me assusta na vida é a possibilidade de deixa-la correr com o tempo. Isso me fez muito curioso e muito pouco covarde.  Aderi imediatamente quando alguém sugeriu a Vila Mimosa. Fiquei muito animado. Não que eu tivesse interesses específicos na Vila Mimosa (por puro sovinismo e vaidade não tenho desejos com prostituição), mas a sensação era a de se estar passando para a próxima fase do jogo. Imaginava como seria o cenário, os personagens, qual seria a ação, enfim.  Fiquei muito animado pela VM ser de um imaginário mítico. Zona de meretrício mais barata e escancarada da cidade, fica nas redondezas da rua Ceará. Perto do Garage -casa de shows tosquera, que a cada ano passa três meses aberta e nove fechada- do Heavy Duty – bar de Metaleiros Hell Angels nervosos- e de mais meia dúzia de estabelecimentos indescrítiveis.

A Rua Ceará e o principal lar dos perdidos mais insanos e maltratados do Rio. Graças a rua Ceará, até hoje eu gargalho por dentro quando um nobrezinho de allstar, frequentador de festas descoladas, se diz representante do cenário alternativo. O lugar pede estômago e tem uma beleza sórdida. As pessoas que rodam por lá sempre mostram um sorriso irritado, como se o fato de estarem lá fosse uma imensa piroca que eles mandam para a sociedade ordenada.  Pobres, feios, bêbados, desprovidos de qualquer tipo de limitação que não fosse física. Acho que eles não se assustavam mais com nada e eu não me assustava com eles.

Luís, que havia sugerido a Vila Mimosa, era um amigo de infância. Leal, prestativo, sempre me ajudou quando eu estive na merda. Tem a corpulência e os gostos de um bárbaro medieval. Acredito que o único traço de modernidade nele é um humor negro, inteligente e refinado, cuja crueldade beira o fascimo. Ele se divertia justamente com o clima sem lei. Os outros foram levados pelo mesmo impulso que eu.

As coisas por lá funcionavam como em uma Uruguaiana onírica, onde as lojinhas davam espaço a bares (em sua imensa maioria), fliperamas, biroscas que serviam comida, mesas de jogos e outros tipos de entretenimento dos quais eu não consigo me lembrar e, sinceramente, não soube reconhecer.  As putas ficavam espalhadas no ambiente e eram de longe as mais feias com as quais eu já tinha me deparado. Elas não eram sexys, os seus trejeitos de sedução eram obscurecidos pela humanidade encarnecida que exalavam. Senti uma empatia sincera por aquelas mulheres.  Ao caminhar, ouvi o som de batidas secas saindo de um dos bares. Olhando para o interior vi que se tratava de uma menina, que devia ter os mesmos dezoito anos que eu, ou menos, tomando repetidos murros no crânio. “Um cafetão de verdade nunca acerta o rosto”, foi tudo que consegui pensar. Ninguém se meteu. A primeira coisa que você sente em um lugar desses é que para a merda inteira não explodir, cada um cuida da sua vida.

Entrei em um dos bares. Me aproximei do balcão onde uma negra de bunda colossal, rosto deformado, e completamente nua, produzia um espetáculo no qual ela dançava sobre uma garrafa de cerveja de 600 ml. Revezava entre enfiar o gargalo inteiro no cu ou meia garrafa na buceta, cada vez que abaixava, isso a pouco mais de meio metro dos meus olhos. Olhando a deformação do rosto dela imaginei quem seria o seu público, se ela teria um público, se aquilo era um impulso por atenção ou o melhor jeito de conseguir cliente. Pela primeira vez na noite me senti estúpido e alienado. Pude sentir na garganta o gosto da minha criação burguesa e a afetação dos meus prazeres e senso de estética. Meus amigos me arrastaram do bar.

No corredor de saída todos fomos surpreendidos por uma criaturinha linda. Sentada discretamente em um bar de luz verde, ela tinha cabelos castanhos que ondulavam até a linha da cintura, rosto de índia, magra, peitos discretos…Usava uma blusa de alcinha, branca, de algodão, sutiã a mostra, uma saia indiana que chegava ao tornozelo, onde se via uma pulseirinha trançada, daquelas do sana.

– Ela não pode ser uma puta da VM.

– Ela só pode ser uma puta, na VM.

Não lembro quem argumentou o que, mas no final concordamos todos e o Mário resolveu ir até ela. Minutos depois observei os dois subindo uma escada quase escondida e pensei: “Porra, ótimo, agora temos mais uma hora”

Eu já estava bebado. Mais que bêbado, já estava cansado de beber. Queria ir para casa, estava satisfeito, e fui até a rua. Num boteco, agora a céu aberto, vi dois moleques fumando um. Achei que um baseado ia cair bem para aquela hora extra na Vila Mimosa e me aproximei dos moleques.

– Ih maluco, a parada ta morrendo aqui, mas se tu tiver na pilha é pertinho de arrumar.

Nunca tinha comprado e julguei que essa era uma experiência menos impactante do que todas as outras pelas quais eu já tinha passado ali. Vê-se armas de grande porte todo dia na rua e se você foi criado no pé do morro sabe que os policiais não são nem mais cordiais e nem menos perigosos que os bandidos. Só mais parciais. E no final das contas, eu ainda tinha uma hora. Daniel me acompanhou por segurança e o Luís ficou esperando no boteco.

Porém,ao chegar no beco/vendinha eu estava assustado, Daniel havia me deixado no ponto de entrada, e eu decidi que aquela seria a primeira e única vez. As pessoas que exibiam sorrisos irritados de revolta foram substituídas por pessoas de olhar caótico e dedos trêmulos. Aquela altura eu já tinha parado de brincar de antropólogo e estava com medo. Não conseguia parar de pensar na falta de sentido para aquela situação de terror, eu só queria fumar uma porra de um baseado. Me dei conta imediatamente da estupidez que é negociar com gente armada. Sobretudo, gente armada, desconhecida, e que não se importa em morrer por que sabe que o mundo já é um inferno mesmo.

Estava parado na fila aguardando a minha vez. Merda de fila que está em todos os lugares, pelo menos nessa todo mundo queria ser atendido o mais rápido possível.  Zero descontração, minha cabeça corria sobre o mesmo tema. “Porra! Leis não brotam da terra. Elas são aplicadas por gente que tem interesse. E que não é o da população. Será que ninguém percebe isso? Nunca vi ninguém espancar a mulher chapado, agora alcoólatra aleijando filho… PORRA, tudo mata! Sabe o que mata mesmo? aquela merda daquele fuzil! Por causa de uma planta, que pode ser cultivada e consumida em casa, a menina no meio do confronto, no meio da favela tem que tomar um tiro?  Toda compulsão é nociva. Sabe qual é a pior para mim? Comida! Já viu velho obeso? Sabe por que não? Porque gordo morre! E se a porra do gordo quer morrer, azar o dele. 20 séculos de uso, um de proibição e milhares de corpos por ano. O que fez a máfia em chigago foi a lei seca, todo mundo sabe disso. Alguém lucra com essa merda e não é o fudido psicótico que ta segurando o Fuzil. Existe um anacronismo jurídico, que seria uma bobagem, se não matasse gente. Ninguém levaria a sério um regulamento do estado para controlar os gordos porque eles estão se matando. Com razão. Mas políticos que controlam a produção e o mercado mundial de drogas as proíbiram e são apoiados por obscurantistas covardes que não sabem do que se trata o assunto.  É mais fácil deixar que tomem tiro e a grana continuar entrando, do regular e aplicar uma política profilática de saúde pública. Diminuiria bastante o número de mortos. Mas não se importam por que esses milhares são pobres e pobres não contam. Se uma dondoca toma um tiro no meio da rua, vai parar no Jornal Nacional como vítima da violência. Três mil pobres mortos, entre policiais, bandidos, e favelados, é só um número. Para as gordas, criam marcas, desfiles, um mercado de moda.  Come criancinha, come! Sinta-se bem com o próprio corpo e veja, pela primeira vez em um século, a expectativa de vida média de um norte americano diminuir. PORRA, Gordas são feias. Mas maconheiros estão criando o caos no universo.  Se você olha na cara de um dos psicóticos desse beco, você vê na hora que nem uma overdose de pó é tão grosseira e chocante quanto a presença de um Fuzil na mão daquele homem. E esse fuzil não está ali por minha causa, ele não está se defendendo de mim…”

Meus pensamentos são interrompidos por um sujeito muito branco, muito magro, muito suado e muito, mais muito nervoso que ultrapassa todo mundo na fila. Aproveito a distração para me retirar dali sem ser notado.

Quando saio de perto, só consigo praguejar coisas sem sentido contra gordos para o Daniel. Coitados dos gordos.Quando chegamos no boteco, o Mário  tinha sido rápido e já estava com o Luís. Entramos no carro. Tinha uma blitz na saída da rua Ceará, provavelmente tirando dinheiro dos maconheiros e dos sujeitos com IPVA atrasado. Bom, aplicando a lei é que eles não estavam. Dormi antes de chegar em casa.

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3 Respostas para “Sexo, drogas, comida e outras compulsões.

  1. Eu sou uma gorda mega gata, porra! 😛

  2. Uruguaiana de corpos, suruba crente e um verdadeiro exercício de fé na realidade.

    Eu diria. rs

  3. geeente, e essa foto

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