Sexta a noite, no Rio dos ricos.

Leblon, uma e meia da manhã: fila.

Odeio fila. É a velha história do apreço por multidão que esse povo cativa, de novo. Eu tenho lugares melhores para estar numa porra de madrugada de sexta-feira. Essa galera que caga dinheiro suponho que tenha lugares melhores ainda. Não consigo entender. Nunca vim nesse lugar,  quero entrar. Gosto muito de conhecer lugares. Mas vou furar essa merda  de fila e deixar que a “galeres” que está aqui toda semana continue contemplando a maravilhosa sensação de ficar em um espaço lotado. Aproveito que conheço meia dúzia de pessoas, já que produzo festas, argumento que não vou ficar muito tempo, e entro na casa.

Tudo é muito limpo, assustadoramente limpo, tão limpo que nem a minha sombra eu vejo impregnando o ambiente. A própria entrada poderia ser um pórtico para o novo mundo, de tão imponente. A casa não está nem na metade da lotação. Volto a não entender a fila. Tudo é muito sofisticado, quase robótico. Sinto-me levemente oprimido. As pessoas são impressionantes, parecem ter nascido em uma passarela. A música é a mesma de sempre. Parece uma rádio peculiar que toca sempre ao vivo para as elites, ainda assim uma rádio: previsível, pasteurizada, temática, e, para mim, indistinguível.  Não frequento a noite para ouvir música, faço isso em casa. Portanto nada que me incomode – apesar de gostar muito e me surpreender com o fato de que pode se ouvir música jamaicana dos anos 50, balcânica, instrumental, céltica, etc. em alguns lugares nessa cidade. No entanto, desde o início dos tempos, o público sempre quis de verdade é o bom e velho mais do mesmo. Não posso culpar o lugar. Dentro dessa estética, eles são bastante competentes por sinal.

Me sinto deslocado, mas isso é comum e parou de me incomodar também. Não sou descolado, nem bonito, nem rico. Me impressiono novamente com as pessoas no lugar. Elas são muito bonitas, bem vestidas e parecem fabricadas (literalmente). A beleza de televisão delas se torna bem menos interessante pelo fato de me olharem como se eu tivesse peidado do lado delas. Me afasto e desfaço essa impressão: elas fazem a mesma cara, esteja quem estiver por perto, como se cheirassem o PRÓPRIO peido com prazer blasé e masoquista. Apesar da opressão que o sucesso brilhante passa, as coisas são frágeis e as pessoas parecem morrer pela aparência. Ver em modeletes olhos assustados de quem não sabe que rumo dar à vida é tocante.

Com um pouco de medo, recorro ao bar. Tento sempre ser muito educado com os desconhecidos. Eu não quero parecer esnobe. Procuro honestamente me divertir.

– Amigo, quanto tá a cerveja?

– Oito reais.

Rio de nervoso, quase cuspindo com o engasgo.

– Porra, por preço de puteiro pelo menos peitinho eu quero ver.

O garçom ri, mas logo em seguida se dá conta do seu lugar e faz uma cara de auto repreensão.

Eu tento insistir. Acredito que aquele sujeito tem uma percepção mais similar à minha.

– Se bem que eu acho que as pessoas aqui só devem conseguir trepar porque cheiram mais bicarbonato que pó nessa cidade.

Dou uma risada cínica. O garçom me olha irritado e vira as costas. Me dou conta de que não vou ficar bêbado e me arrependo de ter gasto os oito reais. Começo a me sentir como em um pátio de escola no meio dessa segregação social. Eu sempre fui derrotado nos pátios de escola. Não consigo me aproximar de ninguém. Não converso muito. Só amenidades, com amigos. Estou fisicamente cansado e não quero ouvir as mesmas expressões que eu leio na internet, que as elites usam como se fossem o último grito da moda, e que, normalmente, saem de programas da tv aberta, assistidos massivamente por famílias cuja renda mensal é inferior ao consumo de três ou quatro amigos naquele bar.

“Porra, queria agarrar uma cocota.”,  penso timidamente. Mas nenhuma das cocotas parece humana o suficiente para mim. Alias, todas parecem a mesma cocota da televisão. Agora eu acho que não é culpa das cocotas, e sim do lugar. Acabou a minha cerveja e eu não vou comprar outra. Fumo um cigarro. Olho para porta e vejo a menina linda, que estava logo na minha frente enquanto eu estava na fila, entrando na casa.

“É hora de ir embora, eles são bons demais para mim.” E saio dali, me afastando da punheta, em busca de uma mulher mais real e correndo atrás de uma cerveja de garrafa para beber encostado em um meio fio qualquer.

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7 Respostas para “Sexta a noite, no Rio dos ricos.

  1. FOOOOOOOODA! huahauhau lounge 69 r0x a lot. a promo de 3 longnecks por 24reais é sensacional! E eles ainda cobram 10% , sendo que não têm garçons. E quando no final a conta dá quebrada (você deveria receber 5 reais de troco), eles arredondam pra cima! Esse negócio de esbanjar riqueza é um complexo-de-piru-piqueno canalizado pelo dinheiro. Coisa de quem fez Cultura Inglesa e tá se achando globalized. rs

  2. Todos os dias são assim numa night? Parou de beber a cerveja de 8 reais? hehe você é doido mesmo. Procura ir na Goeast pelo menos tem música balcânica! abraços e veja o lado humanos das cocotas irreais

  3. Eu costumo dizer que as mulheres que vão nesses lugares são aquelas mesmas que ficam alisando o carro no salão do automóvel: perfeita e intocável.

  4. Porra, até que tu escreve bem… tanta leitura afinal teve alguma serventia hein!

    No aguardo de suas proximas aventuras kafkanianas pelas nights do Rio! =D

    []’s do amigo Fanfa!

  5. ” – Se bem que eu acho que as pessoas aqui só devem conseguir trepar porque cheiram mais bicarbonato que pó nessa cidade.”

    Eu soltaria uma gargalhada daquelas. E brindaria contigo.

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