Súplicas atendidas (A polaca mais linda da cidade)

Homer 041

Ela foi embora.

Quinta de noite eu fiz uma mixtape para ela. A seleção estava bem variada e agradável, meu humor anda vibrante por motivos desconhecidos (não tão desconhecidos, mas eu explico isso aos poucos). Tanto gostei da fita que ouvi repetidas vezes até agora (segunda de manhã)e penso em guardá-la para outra andorinha. Eu tenho paixão o suficiente para não ter escrúpulos com esse tipo de coisa. Na sexta liguei uma vez para tentar entregar a fita, ela não atendeu e nem ligou de volta. Odeio ser ignorado, e avisei isso. Me manda à merda, atende e diz que não quer falar, mas não me ignora.

A noite, durante uma festa, ela apareceu acompanhada. Eu sabia que não era o único, mas definitivamente não queria ver. E se ela quisesse de fato alguma coisa, tinha que ter sido esperta para evitar que eu visse.  Mas ela é bem menos impulsiva do que eu, e isso tem sido imperdoável. Culpa minha, impaciente e solitário. Talvez preguiçoso. O fato é que não brigo mais.

Já na própria noite de sexta me sentia com o espírito livre e displicente. Me diverti como no inferno, tive conversas fantásticas e assumi a parte mêcanica da discotecagem para a Larissa (essa menina  merece um livro) que havia machucado o braço.

Recentemente minhas vaidades se tornaram produtivas e específicas, isso fez com que minhas súplicas fossem atendidas e eu fosse catapultado para uma fase particularmente carismática. O mundo continua vazio, porém. Fodam-se todos. Transformando a minha insanidade em produção e a minha vida em literatura barata eu voltei a viver. (Passei os últimos 3 anos existindo, apenas) Percebi que a medíocridade não é capaz de me moer e perdi o medo dos moralistas burros e sem graça que dominam o Rio de Janeiro com ares mudernos. Eles são assustadores, mas oque havia me deixado triste e derrotado era justamente a pressão babaca por sanidade e comportamento socialmente adequado.

Maria me entristeceu. Não serei injusto, porém.  Eu não sou um moralista e apesar da vaidade ofendida eu não me importo que ela tenha beijado outro cara. Eu sei que não poderia cobrar nada. Ela ainda me desperta um afeto único. Nossas conversas acontecem sem esforço nenhum, como se guardássemos segredos de anos um do outro. Maria contribuiu bastante para a minha felicidade excitada. Com ela, e pensando nela, recuperei rituais dos meus treze anos. Ri sozinho, beijei o espelho e deitei no gramado imaginando se ela estaria enxergando aquela mesma estrela que eu. Idiota, no entanto feliz.  Vou parar de esbravejar o incômodo e entregar o disco para ela.

Embora esteja trabalhando para caralho, continuo fudido de grana. Fiquei dez dias vendendo livro na Feira do Riocentro para levantar uma grana e com isso e a venda de uns equipamentos vou sanar as minhas dívidas de setembro e continuar tocando a produtora. O trabalho no Riocentro, além de longe, era cansativo. Ficava em pé durante nove horas seguidas, com direito a 15 minutos de almoço.  A vantagem era a felicidade de fazer serem lidos meus livros favoritos, coisa que nunca consegui com meus amigos.  Tenho a esperança de que os livros comprados não virem enfeite de estante. Mas a boa verdade é que essas feiras são uma fraude. O povo carioca está pouco se fudendo para literatura. As pessoas são ignorantes até o último fio de cabelo e se elas lessem  de verdade não se disporiam a ir até a putaquepariu para enfrentar uma multidão, pagar ingresso e estacionamento, e comprar livros pelo mesmo preço que eles são oferecidos normalmente em livrarias, e bem mais caro do que se conseguiria em sebo. A classe média vai até a bienal pelo mesmo motivo que lota exposição do Monet (ou alguém acha que  o carioca médio se interessa por impressionismo?) : Porque gosta de fila. Fila combate a solidão. Frouxos de merda!

No geral as pessoas pediam livros escrotos, bobagens editadas que ganham ares de cultura por serem livros. Mas verdade seja dita, conheci gente interessante. Até gente inculta – e incauta, por estar gastando tempo no Riocentro – mas sinceramente curiosa e interessada. Consegui esgotar Notas do subsolo, de Dostoiéviski,  A alma do homem sob o socialismo, de Oscar Wilde, e O diamante do tamanho do Ritz, do Fitzgerald. Vendi até bastante exemplares de Dez dias que abalaram o mundo, leitura densa de verdade (Confesso que esse eu acho que vai virar enfeite de estante).

Agora que o trabalho escravo acabou, vou voltar a escrever, organizar minhas idéias e a produtora. Preciso arrumar meu quarto, que está há meses sem sentido nenhum. Responder todas as pessoas que eu conheci, e as que esperam respostas há tempos. Minhas finanças estão milagrosamente organizadas (embora pobres). E eu decidi liberar o cigarro no quarto. Me habituei de novo com a idéia de ser fumante e não dá para trabalhar em casa no ritmo de baseados.(Amigos que frequentam a casa vão comemorar efusivamente)

Pretendo aproveitar de forma egoísta a boa fase. Nos últimos minutos, da última hora de trabalho na bienal, conheci a polaquinha mais linda da cidade. Procurava com os olhos uma moça que havia me pedido orientação sobre Shakespeare e esbarrei com ela. No segundo que meus olhos trombaram com o rosto dela, senti da sua expressão uma vontade contida de contato.  Atendi a moça do Shakespeare, fiz com que ela levasse Titus Andronico, provavelmente a peça mais violenta. Conta a história do General Romano, que voltando triunfante da guerra contra os Godos, se recusa a assumir o império, desencadeando uma onda sem fim de mortes e vingança. Tem cenas bastante chocantes  mutilações, decapitações, estupro, canibalismo involuntário… Enfim, Roma.

Atendida a moça, livro vendido, voltei a reparar naqueles olhos que me deram atenção tão descarada.Tenho dado sorte, ou cuidado melhor da minha paixão pelo corpo feminino. Não importa, o fato é que ela estava muito bonita: olhos redondos que pareciam polídos de brilho, de um castanho obsceno, pele muito clara, unhas ingenuamente rubras, sorriso tímido. Vontade imediata de abraçar.  Recomendei alguns livros, ela me agradeceu carinhosamente. Troquei o assunto para alguma coisa mais pessoal. Falei da produtora e do Paraphernalia.

– Espera um minuto que eu vou buscar papel e caneta.

Voltei.

– Me dá o seu email, que eu vou te passar os detalhes da noite de quarta.

– Anota aí: Luiza, Ipsilon, a, ésse, cá, ó, vê, i, ésse, cê, agá. Yaskovisch. Ninguém merece esse sobrenome. Arroba eunãovoudaroemaildela ponto com.

– É Polonês?

– É! Nossa, normalmente chutam russo.

– Sorte a minha, né?

Deu outro sorriso.

– Anota aí meu telefone também. Pô, eu vou com certeza!

Ela se encaminhou para a fila de pagamento. Pagou e veio se despedir.

– Olha as minhas amigas adoraram as suas sugestões.

Nos despedimos com um abraço e dois bejinhos, e ainda, antes que ela saísse eu agarrei a mão dela apertei forte e então aquela mão terna escorregou com outro sorisso contido para fora do meu estande.

Beleza, como o ar, é fundamental, grátis e abundante.

Sorte a minha, não?

[Lendo Situações I- Jean Paul Sartre (críticas literárias)]

PS: Maria, pela poesia, tem seu nome. Os outros resolvi mudar. 🙂

PS 2: Maria é o nome mais bonito de todos.

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Uma resposta para “Súplicas atendidas (A polaca mais linda da cidade)

  1. sorte a sua. 😉

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